domingo, 22 de novembro de 2009

Cap. I - Um sopro

Andava a esmo por vielas escuras. Vez por outra, a lua dava o ar de sua graça, deixando o caminho à meia-luz. Me dei conta de que havia percorrido mais que as 20 mil léguas submarinas. No meu rosto, cintilavam gotas orvalhadas de suor frio.
Havia eu morrido?
As sensações mórbidas eram mais intensas. Tristeza, rancor, melancolia, desamparo, depressão.

Eu via a noite. Ela, com certeza, também me via. Mas estava ela, de fato, ali? Poderia muito bem ser tudo, tudo fruto de meus próprios devaneios. Preso em mim mesmo.

[...]

Avistei um pequeno café, cujas paredes eram tão sujas que pareciam ter sido mesmo pintadas na cor cinza.
Pedi um conhaque. Incrivelmente, me desceu como gelo.
Sacudi uma nota alta na mesa minúscula e saí, sem esperar pelo troco. A garçonete era simplesmente imunda, tanto quanto requeria o lugar, e eu não teria coragem de tocar-lhe a mão.

Já estava com ambos os pés na cabeça da ponte quando acreditei ter feito mal. Se estava morto, em que a imundície da miséria me afetaria? Já não poderia ficar de cama, doente de nojo.
Quantas bobagens mundanas somos capazes de carregar! Esse sim é um fardo pesado.

Tomei o caminho de volta na mesma passada. Deveria buscar meu troco, como qualquer outro freguês. Não sabia se ela me reconheceria, apesar de minha retirada ter se dado tão recentemente.
Abri a porta num ímpeto, fazendo o sininho disparar. Era o anúncio da chegada de mais um cliente.
Não a avistei de pronto. Deveria estar, por certo, lavando alguma xícara numa bacia de água engordurada.
Sentei-me ao balcão, de modo que seria visto rapidamente por quem quer que deixasse a cozinha. Como demorasse a aparecer, resolvi perguntar ao dono daquela pocilga onde estava ela. "Já largou", ele disse. "Sabe onde ela mora?", perguntei.

Danei-me pelas ruas mais baixas da periferia. Haveria de encontrá-la.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Expatriado

Encerrei-me. Este é o sentimento. Lacrei as cancelas de meu ser e, no íntimo, me fechei para o mundo "real". Havia já algum tempo que não me parecia sólida a ideia da conversação. Falar de quê, para quê e, principalmente, com quem?
Tive de me acostumar ao fato de não ser mais necessário, de minha existência ter sido reduzida ao pó. Quem quer que insista que digo sandices é louco.
Perdi o poder de sentir a brisa leve das montanhas em meu rosto. Já não enxergo o azul do céu nem percebo o olhar melancólico e preocupado de meu cão. Pobre Eddie. Como estará sem meus afagos e sem nossos passeios intermináveis pelo parque?
Não sei onde meus pés me levam. Não vejo, não sinto, não ouço, não falo. Só escrevo. Escrevo cartas, das mais diversas. Talvez seja um prazer comum aos expatriados. Pena que do lugar donde parti não há escapatória...


É possível fugir de si mesmo?

sábado, 26 de setembro de 2009

O dia já estava estranho. Faltou água, o computador não ligava, o telefone não tocava. O máximo que ela tinha era o convite de sair com a tia. E isso não parecia suficiente, ou melhor, não era.
Ela queria mais. Mais da vida, mais do amor, mais do dia. Mais e mais. Talvez, simplesmente, sentir um pouco de vida. Pouco mais.

"A vida é tão rara", ouviu Lenine declarar. Estava certíssimo. E a depressão, de volta.

Lágrimas, traiçoeiras e redondas, caíam em fila indiana, ininterruptamente.

E entre músicas apropriadas para o gran momento, um amigo com quem não falava há tempos reaparece, e traz consigo que "nações são prisões. O mundo é de todos". E a vida também. Brindemos.














Tin tin.

domingo, 30 de agosto de 2009

Pacto

É doloroso cortar o dedo com uma faca, daquelas super amoladas. Mais doloroso ainda quando se é um chef. Parece que tudo aconteceu como fruto da incompetência.


O sangue espirra. Vem quente, caudaloso, correndo corte abaixo como um rio corre em seu leito. Um lapso humano ou mero capricho da natureza? Difícil dizer.


Ele estava ao meu lado. Acodiu rapidamente, com um pano limpo nas mãos. Mãos firmes, seguras. Percebi, então, que eu estava mais para uma ajudante atrapalhada de cozinha.


A profundidade do estrago era inegável. Não estancava nem por um quindim.


E então outro jorro. Novo corte, nova pulsação, outro coração. Um corte sobre o outro, sobrepondo defeitos com virtudes, enlaçando o que eram dois corações num só.















Pactos de amor são sagrados.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Oh, baby! I was born with a fast fuse...

“Tião nasceu!”, comemorou seu pai naquela manhã modorrenta. Talvez por ter se tratado de uma 'matina' desta natureza, ninguém se deu ao trabalho de desconfiar do excesso de cor que invadia suas bochechas gorduchas.
É bem verdade que, enquanto recém-nascido, Tião foi até comum: desdentado, enrugado e de olhar sonhador (olhinhos muito bem cerrados).
Mas não fosse o afã do nascimento, haveriam de ter notado. Qual infante sorri com prazer para o doutor ao receber palmadinhas no bumbum?
Tião.
Começou a criar consciência real de si aos três anos de idade. Descobriu que detestava o nome Sebastião e ordenou que o tratassem pelo apelido que inventara. Tião era mais rápido (abominava a lerdeza). Além de tudo, era chamosinho.

Fora uma criança habilidosa com trabalhos manuais. Dono de uma coordenação motora invejada até por Michelângelo, Tião “pintava o sete”. Literalmente.

Nasceu no dia 7/7/1974 e pintou seu primeiro 'sete' aos 7 anos: “reorganizou” as partes do corpo de seu gatinho Neneco, para que formassem o número da perfeição.
Por conta da incompreensão de seus pais, que nada entendiam de arte, achou por bem esperar até seu 14° Carnaval para, uma vez mais, mostrar seus dons artísticos. Mais um 'sete'.

Foi aos 21, no entanto, que Tião deslanchou como um exímio sushiman. Que talento! Não fosse o aborrecimento de ter aquele cheiro impregnado em suas mãos, talvez tivesse continuado com os peixes...mas, todos sabem, a vida é uma aventura!

Aí surgiram mais cinco 'setes', nos quais jaziam cinco coleguinhas inoportunos dos tempos de colégio. Entre eles, Tião.
Que graça tem ser um artista quando eu mesmo não sei dizer o quão boa minha arte é?

domingo, 9 de agosto de 2009

Que gosto tem a loucura?

Mas que flor de formosura, meu Deus! Uma verdadeira beldade, um oásis nas areias escaldantes dos desertos!

Ah! Só de lembrar tenho tremeliques. Ela me levou à loucura!
Ah! O cheiro de seus cabelos...era de tornar inodoro qualquer outro ser ou substância!
E o sorriso...bem, o sorriso era, de fato, um estonteamento à parte. Alvo como sua pele, mas tão brilhante quanto os castanhos (quase negros) fios que pendiam do alto de sua cabeça.
Se posso me dar ao luxo de representar os efeitos causados por tal combinação em uma só palavra, esta seria loucura.

E como é doce o sabor de uma loucura de amor! Quem dera ter o poder de voz de um imperador...assim, decretaria o fim da Era dos Desgostos. Tudo docinho, docinho, como minha açucarada lady. "Chega de amargores! Vamos brindar aos cabelos de chocolate, aos dentes de marshmallow e, claro, aos corpos de doce-deleite", diria eu.

O amor é saboroso. É bem verdade que muitos não têm o paladar aguçado, e por isso deixam passar, desapercebidas, deliciosas nuances gastronômicas. Hão de treinar suas papilas gustativas. Depois disto feito, voltamos a conversar.

Jack, o chef.

sábado, 25 de julho de 2009

Because I want you, too.

Sophia era só lágrimas. De fato, era improvável compreender o que havia se passado entre mim e minha paixão. Eu, pelo menos, por mais que quisesse, não sabia como explicar-lhe. E mesmo se soubesse, ela não entenderia.

Foi uma coisa de momento. Um momento que jamais passou, que não acabou.

Eu amava Sophia, disso estava certo, não havia discussão. Todavia, quem disse que o amor é suficiente? Pode crer que o nariz começará a crescer por esses dias...

Gostaria, sim, que amor e paixão seguissem sempre de braços dados, como pai e filha, quando da caminhada ao altar.
Pena. Não é assim.

Minha amada não perdoaria a paixão súbita que assolou meu ser por completo. Evidente que não. O que ela afirma sentir por mim é o conjunto da obra, amor + paixão, unidos num mesmo invólucro. Como argumentar diante disso?

No fim, terminarei sozinho, sem nem, ao menos, poder dizer que será assim como vim ao mundo. Minha paixão derreteu-se de ardor por meu irmão, gêmeo.

Não se pode mesmo ser feliz. Isso não existe. O que existe são momentos de prazer, de plenitude. Mas já não exijo tal da vida. Derramei ralo abaixo o que ela me deu.