quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

You are the only exception.

Abro os olhos. Estou só. Tomo café com meu pai. Estou só. Fecho a porta, encontro um vizinho e pego o elevador. Estou só. Ando duas quadras com pessoas esbarrando em mim a cada três passos. Estou só. Adentro o auditório da faculdade e espero pela palestra sentado junto a meus colegas de turma. Estou só. Ouço, bem próximo, durante o almoço, o burburinho das fofocas sobre a última festa. Estou só. Alguém na mesa me pede para passar o sal e, ainda que da existência desse contato direto, continuo só.

Só percebo a beleza do abandono da solidão quando vejo seu rosto sorrindo de dentro do carro, quando vem me buscar para nossos encontros-surpresa. E a partir daí nada mais importa. Não me importam as conversas vazias e sem sentido. Não me importam os dias que findam sem serem vividos. Não me importam os milhares de "bons-dias" que dei ao porteiro para receber um "de nada" em retorno. Não me importam as noites passadas em claro, já que não contava nem com a companhia do sono. Não me importam as lembranças de uma solidão infligida por tudo e por todos.

O que me importa é que a única exceção me sorri, abre os braços e me recebe com um beijo, seguido de um abraço, para matar qualquer saudade. Solidão? Não. Com você.

sábado, 15 de maio de 2010

Cinema, cigarros e chá de hortelã

Me irrita ser obrigada a enfrentar as centenas de frequentadores do shopping center sempre que preciso ir ao cinema. Sim, filmes são parte da minha terapia. Preciso deles, assim como dos cigarros, para continuar existindo.

Sempre chego muito adiantada para as sessões. Sento-me a um banco e tomo por passatempo observar a variedade dos calçados dos passantes. Se bem me lembro, foram apenas duas as vezes que vi pessoas diferentes com o mesmo modelo de sapatos. Curioso.

Fora esse meu estudo de caso acerca daquilo que envolve nossas solas, aprecio o desafio das palavras cruzadas. Diretas, Coquetel, Difícil. Se não ficasse tão preocupada em chegar na hora das sessões, poderia empregar todo o tempo que me resta nesse mundo das cruzadinhas. Instigante.

Me acomodo na poltrona. Apagam as luzes. Deixam acesas apenas aquelas luzinhas de merda, aquelas que são pregadas ao chão. Como se as pobres filhas da mãe pudessem impedir meus pés de tropeçarem. Inútil.

Propaganda. Trailers. Filme. Eu eliminaria, de bom grado, as duas primeiras etapas. Publicitários fazem seu trabalho porcamente e eu não gosto de receber spoilers de filmes. Bobajada.

Não preciso olhar nem apurar meus ouvidos para saber que há pelo menos uma quinzena de casais dando uns amassos ao meu redor. Ingresso promocional tem dessas coisas. Seria bom se houvessem promoções realmente dignas nos motéis, ao contrário daquela conversa fiada de "jantar grátis". Enrolação.

O filme começa e prego meus olhos na tela. É chato descolá-los por segundos quando alguém passa para ir ao banheiro. Gostaria que pessoas incovenientes fossem obrigadas a usar sondas para dejetos. Sonho.

É hora do cast e quase todos se levantam ao desabrochar da primeira sombra de nomes próprios na tela. A relação homem-trabalho é mesmo deturpada. Difícil alguém capaz de prestigiar o trabalho do outro, ainda que seja malfeito. Ignorância.

Paro num café perto de casa e tomo um chá de hortelã. Reviso o jornal e faço minha escolha cinematográfica para o dia seguinte. Paz.

sábado, 27 de março de 2010

Saudades do céu azul...

Linhas luminosas riscavam o céu sem parar. Zeus, por certo, estava no ápice de sua fúria. Será que ele não entendia que Clarice era, além de mim, quem merecia aquela tempestade? Por que aborrecer os outros habitantes da cidade?

Tudo começou com o tal "amor à primeira vista". Para os familiarizados com o assunto, trata-se da velha e boa paixão. Irresistível, avassaladora, visceral. Eu, um reles mortal, nem um pouco habituado a explosões sentimentais, fui pego de surpresa. Um gato interceptado por mãos ágeis no meio do pulo.

A ideia inicial era ter um casinho à toa. Eu não tinha intenção alguma de desmembrar meu aconchegante e confortável lar. Tinha uma esposa prendada, silenciosa e pudica... um doce de pessoa. Mas era um doce embrulhado e inacessível, como os ovos de Páscoa durante a quaresma.

Havia algum tempo que nosso casamento andava "morno". Algum tempo, leia-se, desde que começou. Mas como namorávamos desde o ginásio, as famílias se adoravam e, à época, não tínhamos ninguém melhor em vista, casamos. "Juntamos os trapinhos", como dizem. E nunca pudemos oferecer um ao outro nada além de trapos.

Não tivemos a audácia de ter filhos. Isso só tornaria nossa convivência ainda mais medíocre, com todos aqueles problemas de boletins e os vômitos e constipações tão típicos das crianças. Por tudo isso, minha culpa em dormir, ao menos três vezes por semana, com Clarice era ínfima. Ela era fantástica, afinal! E ainda tinha o frescor dos vinte e poucos anos... uma recém-chegada à vida adulta.

Mal nos conhecemos e já era como se Clarice fosse necessária ao funcionamento da parte inútil da minha vida, como se o fato d'ela não estar inserida em algo tirasse o propósito da tal coisa. E sendo impossível injetá-la em tudo ao meu redor, eu tomava overdoses dela, para ser capaz de aguentar todo o resto.

No começo, eu podia sentir a reciprocidade. Ela também adorava nossos encontros. Era carinhosa, atenciosa e muito, muito sexy. Quando me olhava por cima do ombro, mordendo o lábio, eu estava, instantaneamente, pronto para o ataque! Virávamos as noites realizando nossas fantasias e, na maior parte das vezes, eu acariciava seus cabelos negros até que adormecesse.

Que saudade! Saudade de quando ela me amava, me queria, me respeitava. Saudade de quando fizemos nossas juras de amor e de quando prometemos que nada mudaria, nunca. Saudade de quando eu voltava para casa pela manhã, dava um beijo em minha mulher e recebia uma mensagem de Clarice no celular, reafirmando o quanto adorara a noite. Saudade de quando ainda havia uma mulher a me esperar em casa e outra a me mandar mensagens. Saudade dos dias que Clarice manteve sua promessa de não contar nada a ninguém, muito menos à sua chefe, minha mulher.
Saudades...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

I know that you don't want me right

O quarto girava a cada novo passo. À medida que eu caminhava, sentia uma espécie de formigamento na sola dos pés.

Eu havia me doado, quase que incondicionalmente. Mas nesse caso, a dor não era a de uma mãe que descobre que o filho está no caminho errado. Era algo mais para o surreal, indefinido e imaterial. E, apesar de a sensação não ser palpável, era imensamente pesada.

A culpa pode ter sido minha. De fato, enganei a mim mesma. Mas não havia o que ser feito. Me envolvi com Benny e ele se envolveu comigo. Só não sabia que já existia um envolvimento anterior a mim, no qual repousavam três belas crianças, casa na praia e um cachorro. A esposa era só a cereja do bolo.

Pensei em cogitar que se separasse, que ficasse comigo. No entanto, percebi, um pouco tarde, é verdade, que eu era o elo solto da história. Eu era quem deveria sumir, era de quem ele deveria se divorciar.

E assim o fiz. Pedi que não me procurasse mais.

A minha bela criança só seria mais um fio fora da meada.

domingo, 22 de novembro de 2009

Cap. I - Um sopro

Andava a esmo por vielas escuras. Vez por outra, a lua dava o ar de sua graça, deixando o caminho à meia-luz. Me dei conta de que havia percorrido mais que as 20 mil léguas submarinas. No meu rosto, cintilavam gotas orvalhadas de suor frio.
Havia eu morrido?
As sensações mórbidas eram mais intensas. Tristeza, rancor, melancolia, desamparo, depressão.

Eu via a noite. Ela, com certeza, também me via. Mas estava ela, de fato, ali? Poderia muito bem ser tudo, tudo fruto de meus próprios devaneios. Preso em mim mesmo.

[...]

Avistei um pequeno café, cujas paredes eram tão sujas que pareciam ter sido mesmo pintadas na cor cinza.
Pedi um conhaque. Incrivelmente, me desceu como gelo.
Sacudi uma nota alta na mesa minúscula e saí, sem esperar pelo troco. A garçonete era simplesmente imunda, tanto quanto requeria o lugar, e eu não teria coragem de tocar-lhe a mão.

Já estava com ambos os pés na cabeça da ponte quando acreditei ter feito mal. Se estava morto, em que a imundície da miséria me afetaria? Já não poderia ficar de cama, doente de nojo.
Quantas bobagens mundanas somos capazes de carregar! Esse sim é um fardo pesado.

Tomei o caminho de volta na mesma passada. Deveria buscar meu troco, como qualquer outro freguês. Não sabia se ela me reconheceria, apesar de minha retirada ter se dado tão recentemente.
Abri a porta num ímpeto, fazendo o sininho disparar. Era o anúncio da chegada de mais um cliente.
Não a avistei de pronto. Deveria estar, por certo, lavando alguma xícara numa bacia de água engordurada.
Sentei-me ao balcão, de modo que seria visto rapidamente por quem quer que deixasse a cozinha. Como demorasse a aparecer, resolvi perguntar ao dono daquela pocilga onde estava ela. "Já largou", ele disse. "Sabe onde ela mora?", perguntei.

Danei-me pelas ruas mais baixas da periferia. Haveria de encontrá-la.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Expatriado

Encerrei-me. Este é o sentimento. Lacrei as cancelas de meu ser e, no íntimo, me fechei para o mundo "real". Havia já algum tempo que não me parecia sólida a ideia da conversação. Falar de quê, para quê e, principalmente, com quem?
Tive de me acostumar ao fato de não ser mais necessário, de minha existência ter sido reduzida ao pó. Quem quer que insista que digo sandices é louco.
Perdi o poder de sentir a brisa leve das montanhas em meu rosto. Já não enxergo o azul do céu nem percebo o olhar melancólico e preocupado de meu cão. Pobre Eddie. Como estará sem meus afagos e sem nossos passeios intermináveis pelo parque?
Não sei onde meus pés me levam. Não vejo, não sinto, não ouço, não falo. Só escrevo. Escrevo cartas, das mais diversas. Talvez seja um prazer comum aos expatriados. Pena que do lugar donde parti não há escapatória...


É possível fugir de si mesmo?

sábado, 26 de setembro de 2009

O dia já estava estranho. Faltou água, o computador não ligava, o telefone não tocava. O máximo que ela tinha era o convite de sair com a tia. E isso não parecia suficiente, ou melhor, não era.
Ela queria mais. Mais da vida, mais do amor, mais do dia. Mais e mais. Talvez, simplesmente, sentir um pouco de vida. Pouco mais.

"A vida é tão rara", ouviu Lenine declarar. Estava certíssimo. E a depressão, de volta.

Lágrimas, traiçoeiras e redondas, caíam em fila indiana, ininterruptamente.

E entre músicas apropriadas para o gran momento, um amigo com quem não falava há tempos reaparece, e traz consigo que "nações são prisões. O mundo é de todos". E a vida também. Brindemos.














Tin tin.