sábado, 27 de março de 2010

Saudades do céu azul...

Linhas luminosas riscavam o céu sem parar. Zeus, por certo, estava no ápice de sua fúria. Será que ele não entendia que Clarice era, além de mim, quem merecia aquela tempestade? Por que aborrecer os outros habitantes da cidade?

Tudo começou com o tal "amor à primeira vista". Para os familiarizados com o assunto, trata-se da velha e boa paixão. Irresistível, avassaladora, visceral. Eu, um reles mortal, nem um pouco habituado a explosões sentimentais, fui pego de surpresa. Um gato interceptado por mãos ágeis no meio do pulo.

A ideia inicial era ter um casinho à toa. Eu não tinha intenção alguma de desmembrar meu aconchegante e confortável lar. Tinha uma esposa prendada, silenciosa e pudica... um doce de pessoa. Mas era um doce embrulhado e inacessível, como os ovos de Páscoa durante a quaresma.

Havia algum tempo que nosso casamento andava "morno". Algum tempo, leia-se, desde que começou. Mas como namorávamos desde o ginásio, as famílias se adoravam e, à época, não tínhamos ninguém melhor em vista, casamos. "Juntamos os trapinhos", como dizem. E nunca pudemos oferecer um ao outro nada além de trapos.

Não tivemos a audácia de ter filhos. Isso só tornaria nossa convivência ainda mais medíocre, com todos aqueles problemas de boletins e os vômitos e constipações tão típicos das crianças. Por tudo isso, minha culpa em dormir, ao menos três vezes por semana, com Clarice era ínfima. Ela era fantástica, afinal! E ainda tinha o frescor dos vinte e poucos anos... uma recém-chegada à vida adulta.

Mal nos conhecemos e já era como se Clarice fosse necessária ao funcionamento da parte inútil da minha vida, como se o fato d'ela não estar inserida em algo tirasse o propósito da tal coisa. E sendo impossível injetá-la em tudo ao meu redor, eu tomava overdoses dela, para ser capaz de aguentar todo o resto.

No começo, eu podia sentir a reciprocidade. Ela também adorava nossos encontros. Era carinhosa, atenciosa e muito, muito sexy. Quando me olhava por cima do ombro, mordendo o lábio, eu estava, instantaneamente, pronto para o ataque! Virávamos as noites realizando nossas fantasias e, na maior parte das vezes, eu acariciava seus cabelos negros até que adormecesse.

Que saudade! Saudade de quando ela me amava, me queria, me respeitava. Saudade de quando fizemos nossas juras de amor e de quando prometemos que nada mudaria, nunca. Saudade de quando eu voltava para casa pela manhã, dava um beijo em minha mulher e recebia uma mensagem de Clarice no celular, reafirmando o quanto adorara a noite. Saudade de quando ainda havia uma mulher a me esperar em casa e outra a me mandar mensagens. Saudade dos dias que Clarice manteve sua promessa de não contar nada a ninguém, muito menos à sua chefe, minha mulher.
Saudades...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

I know that you don't want me right

O quarto girava a cada novo passo. À medida que eu caminhava, sentia uma espécie de formigamento na sola dos pés.

Eu havia me doado, quase que incondicionalmente. Mas nesse caso, a dor não era a de uma mãe que descobre que o filho está no caminho errado. Era algo mais para o surreal, indefinido e imaterial. E, apesar de a sensação não ser palpável, era imensamente pesada.

A culpa pode ter sido minha. De fato, enganei a mim mesma. Mas não havia o que ser feito. Me envolvi com Benny e ele se envolveu comigo. Só não sabia que já existia um envolvimento anterior a mim, no qual repousavam três belas crianças, casa na praia e um cachorro. A esposa era só a cereja do bolo.

Pensei em cogitar que se separasse, que ficasse comigo. No entanto, percebi, um pouco tarde, é verdade, que eu era o elo solto da história. Eu era quem deveria sumir, era de quem ele deveria se divorciar.

E assim o fiz. Pedi que não me procurasse mais.

A minha bela criança só seria mais um fio fora da meada.

domingo, 22 de novembro de 2009

Cap. I - Um sopro

Andava a esmo por vielas escuras. Vez por outra, a lua dava o ar de sua graça, deixando o caminho à meia-luz. Me dei conta de que havia percorrido mais que as 20 mil léguas submarinas. No meu rosto, cintilavam gotas orvalhadas de suor frio.
Havia eu morrido?
As sensações mórbidas eram mais intensas. Tristeza, rancor, melancolia, desamparo, depressão.

Eu via a noite. Ela, com certeza, também me via. Mas estava ela, de fato, ali? Poderia muito bem ser tudo, tudo fruto de meus próprios devaneios. Preso em mim mesmo.

[...]

Avistei um pequeno café, cujas paredes eram tão sujas que pareciam ter sido mesmo pintadas na cor cinza.
Pedi um conhaque. Incrivelmente, me desceu como gelo.
Sacudi uma nota alta na mesa minúscula e saí, sem esperar pelo troco. A garçonete era simplesmente imunda, tanto quanto requeria o lugar, e eu não teria coragem de tocar-lhe a mão.

Já estava com ambos os pés na cabeça da ponte quando acreditei ter feito mal. Se estava morto, em que a imundície da miséria me afetaria? Já não poderia ficar de cama, doente de nojo.
Quantas bobagens mundanas somos capazes de carregar! Esse sim é um fardo pesado.

Tomei o caminho de volta na mesma passada. Deveria buscar meu troco, como qualquer outro freguês. Não sabia se ela me reconheceria, apesar de minha retirada ter se dado tão recentemente.
Abri a porta num ímpeto, fazendo o sininho disparar. Era o anúncio da chegada de mais um cliente.
Não a avistei de pronto. Deveria estar, por certo, lavando alguma xícara numa bacia de água engordurada.
Sentei-me ao balcão, de modo que seria visto rapidamente por quem quer que deixasse a cozinha. Como demorasse a aparecer, resolvi perguntar ao dono daquela pocilga onde estava ela. "Já largou", ele disse. "Sabe onde ela mora?", perguntei.

Danei-me pelas ruas mais baixas da periferia. Haveria de encontrá-la.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Expatriado

Encerrei-me. Este é o sentimento. Lacrei as cancelas de meu ser e, no íntimo, me fechei para o mundo "real". Havia já algum tempo que não me parecia sólida a ideia da conversação. Falar de quê, para quê e, principalmente, com quem?
Tive de me acostumar ao fato de não ser mais necessário, de minha existência ter sido reduzida ao pó. Quem quer que insista que digo sandices é louco.
Perdi o poder de sentir a brisa leve das montanhas em meu rosto. Já não enxergo o azul do céu nem percebo o olhar melancólico e preocupado de meu cão. Pobre Eddie. Como estará sem meus afagos e sem nossos passeios intermináveis pelo parque?
Não sei onde meus pés me levam. Não vejo, não sinto, não ouço, não falo. Só escrevo. Escrevo cartas, das mais diversas. Talvez seja um prazer comum aos expatriados. Pena que do lugar donde parti não há escapatória...


É possível fugir de si mesmo?

sábado, 26 de setembro de 2009

O dia já estava estranho. Faltou água, o computador não ligava, o telefone não tocava. O máximo que ela tinha era o convite de sair com a tia. E isso não parecia suficiente, ou melhor, não era.
Ela queria mais. Mais da vida, mais do amor, mais do dia. Mais e mais. Talvez, simplesmente, sentir um pouco de vida. Pouco mais.

"A vida é tão rara", ouviu Lenine declarar. Estava certíssimo. E a depressão, de volta.

Lágrimas, traiçoeiras e redondas, caíam em fila indiana, ininterruptamente.

E entre músicas apropriadas para o gran momento, um amigo com quem não falava há tempos reaparece, e traz consigo que "nações são prisões. O mundo é de todos". E a vida também. Brindemos.














Tin tin.

domingo, 30 de agosto de 2009

Pacto

É doloroso cortar o dedo com uma faca, daquelas super amoladas. Mais doloroso ainda quando se é um chef. Parece que tudo aconteceu como fruto da incompetência.


O sangue espirra. Vem quente, caudaloso, correndo corte abaixo como um rio corre em seu leito. Um lapso humano ou mero capricho da natureza? Difícil dizer.


Ele estava ao meu lado. Acodiu rapidamente, com um pano limpo nas mãos. Mãos firmes, seguras. Percebi, então, que eu estava mais para uma ajudante atrapalhada de cozinha.


A profundidade do estrago era inegável. Não estancava nem por um quindim.


E então outro jorro. Novo corte, nova pulsação, outro coração. Um corte sobre o outro, sobrepondo defeitos com virtudes, enlaçando o que eram dois corações num só.















Pactos de amor são sagrados.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Oh, baby! I was born with a fast fuse...

“Tião nasceu!”, comemorou seu pai naquela manhã modorrenta. Talvez por ter se tratado de uma 'matina' desta natureza, ninguém se deu ao trabalho de desconfiar do excesso de cor que invadia suas bochechas gorduchas.
É bem verdade que, enquanto recém-nascido, Tião foi até comum: desdentado, enrugado e de olhar sonhador (olhinhos muito bem cerrados).
Mas não fosse o afã do nascimento, haveriam de ter notado. Qual infante sorri com prazer para o doutor ao receber palmadinhas no bumbum?
Tião.
Começou a criar consciência real de si aos três anos de idade. Descobriu que detestava o nome Sebastião e ordenou que o tratassem pelo apelido que inventara. Tião era mais rápido (abominava a lerdeza). Além de tudo, era chamosinho.

Fora uma criança habilidosa com trabalhos manuais. Dono de uma coordenação motora invejada até por Michelângelo, Tião “pintava o sete”. Literalmente.

Nasceu no dia 7/7/1974 e pintou seu primeiro 'sete' aos 7 anos: “reorganizou” as partes do corpo de seu gatinho Neneco, para que formassem o número da perfeição.
Por conta da incompreensão de seus pais, que nada entendiam de arte, achou por bem esperar até seu 14° Carnaval para, uma vez mais, mostrar seus dons artísticos. Mais um 'sete'.

Foi aos 21, no entanto, que Tião deslanchou como um exímio sushiman. Que talento! Não fosse o aborrecimento de ter aquele cheiro impregnado em suas mãos, talvez tivesse continuado com os peixes...mas, todos sabem, a vida é uma aventura!

Aí surgiram mais cinco 'setes', nos quais jaziam cinco coleguinhas inoportunos dos tempos de colégio. Entre eles, Tião.
Que graça tem ser um artista quando eu mesmo não sei dizer o quão boa minha arte é?