sexta-feira, 15 de maio de 2009

Maldito despertar...

Olhos abertos. Estou desperto. Ao menos, meu corpo está. É que mente e corpo já não trabalham em uníssono. Minha mente caminha em time próprio, só seu, e isso faz toda a diferença. Não sei dizer ao certo o que seria "toda a diferença"; só sei que é total.

Eu deveria ter imaginado que precisaria de algum tempo antes me içar cama afora. Os pés funcionam, as sinapses não. Resultado: tombo matinal, tanto no sentido literal, quanto no figurado.

Acontece que, no exato momento em que meus noventa quilos tocavam o porcelanato, me lembrei do que estava causando o apartheid em meus neurônios.

Percebi logo que seria mais indicado não ter recordado, ter esquecido o acontecido, tê-lo apagado, deletado. A verdade é que não me sentia, de modo algum, preparado para aquilo. Não é algo que esperamos que vá acontecer, muito embora saibamos da possibilidade. Não é certo como a morte, nem impossível como escapar dela. É apenas passível de acontecer.

Ah, a dor da perda.

Um tipo diferente de perda, é verdade. Perda opcional, pelo menos até certo ponto. Poderia desculpar, perdoar, se quisesse. Mas não quis. Não posso perdoar algo que não faz sentido para mim, algo que está fora do alcance de minha compreensão.

Ah, a dor da perda.

Foi quando meu melhor amigo e minha flor saltaram, sorrateiros, para fora de mim.

2 comentários:

Beatriz disse...

a metáfora do 'apartheid em meus neurônios' é uma das mais bem colocadas que já vi, e totalmente associável à dor de uma perda. como é complicado reintegrar corpo e mente quando o que queremos é simplesmente continuar adormecidos, não?

Érica Neves disse...

É tão ruim quando as coisas perdem o sentido, não necessariamente o sentido da coisa em si, mas, o sentido que você dá a coisa.
Aiai...